História mal contada
Era uma vez uma história muito mal contada. Primeiro aparecia o fim, depois o princípio e o meio estava cheio de erros: não explicava se o mau era mau de nascença ou se foi uma paralisia infantil; dava o dito por não dito e redizia o desdito; passava por cima da meta e chegava à narrativa primeiro; atropelava as personagens e fugia para um quartel de bombeiros. E não tinha cheiro, como o cão da piada alemã que matava quem a ouvisse. Por isso essa história foi contada do avesso para ver se conseguia fazer-se ouvir como deve ser.
“Mas uma história não tem querer!” disse a menina ao ouvi-la, “tem o querer de quem a conta e o querer de quem a ouve, mas sozinha não se aguenta.” “E uma história é contada para ser ouvida ou porque não há outra maneira, meu pudinzinho de banana? Ah, ah, ah, espera aí que eu vou-te comer”. Disse a história. E ficou o caldo entornado! Será que tínhamos ouvido mal? Não, não, que todos ouvíramos muito bem, que se tinha tratado claramente de uma tentativa de acto sexual com menor, que pudinzinho de banana é sexo explícito, que até nós nos lambemos, que é preciso por ordem na feira e moral na estrebaria e por isso vai tudo dentro!
Assim, sem julgamento, defesa, recurso e até pernas para andar, a história parou. Parou para reflectir. “Ora esta é muito boa… Sabem o que vos digo? Viver para aprender. Eu devia era ter abreviado e deixar-me de ameaças… Vou-te comer para aqui, ah, ah, ah, para acolá…! Tantos anos nisto… Os anais é que têm razão… Que vulgaridade, vou-te comer… … Espera. Mas eu disse “Vou-te comer”!!! E não “vou comer-te”! Vou-te comer, exclamação! Vou comer-te, reticências… Vou comer-te… as papas na cabeça, vou comer-te… em cima de um prato de agrafos, vou comer-te … esse rabo. Agora, vou-te comer… toda! E ponto final…
E com esta acareação denotativa de qualidade duvidosa a história endrominou os juízes, e os juízes rosnaram que podia não ser pedófila mas era antropófaga, e a história disse que não era sequer carnívora, e que as histórias, como entidades abstractas, alimentam-se de imaginações e figuras de estilo, e que comer criancinhas era coisa de comunistas, e os juízes, para a tramar, perguntaram-lhe a filiação partidária e a história disse que era da direita liberal mas moderada ao centro, e inimputável por definição, quer dizer, como história, onde já se viu uma história ser condenada pela lei dos homens, e os juízes, “então e mais nada?”, e a história, “não.”, e os juízes, “mesmo mais nada, nada, nada?”, e a história, “não, já disse!”, e vai os juízes, “então és uma história sem moral e com esta te lixamos”.
Música:
- – John Cage (EUA) – Sonatas XIV e XV Gemini para piano preparado;
- – Gabin Dabiré (Burkina Faso) – Kalé;
- – Boris Kovac (Sérvia) – Sacred Millstone;
- – Ena Pá 2000 (Portugal) – Canção de Embalar;
- – Giovanni Girolamo Kapsberger/Rolf Lislevand (Itália/Noruega) – Colasione;
- – Accordion Tribe (Eslovénia, Finlândia, Suécia, Áustria) – Encore Deux W;
- – Wendy Mae Chambers (EUA) – New York, New York.
Voz:
- Pedro Lemos
- Maria Martin
Foto: Lisboa, 2007
16:01m – 16 MB
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